Um dos pontos que mais incomodam os internautas é a divulgação em massa das chamadas Lendas Urbanas. Pode atirar a primeira pedra quem nunca acreditou que desodorantes podiam provocar câncer de mama, que uma grande multinacional de informática lhe enviaria um cheque de algumas centenas de dólares caso você replicasse um determinado e-mail para uns 20 amigos pelo menos, que uma criança seria salva também por replicação de e-mails ou que latas de refrigerante contaminadas por urina de rato levariam à morte e tantas outras que povoam nossas caixas postais diariamente.
Você pode não ter se afastado nem dos antitranspirantes, muito menos das latinhas mal lavadas ou sequer ter se dado ao trabalho de “entupir” a caixa postal de seus amigos, mas certamente em algum momento ficou desconfiado ao ler relatos sobre estes “perigos”. São todos relatos que começaram a se alastrar com a popularização da internet, no final dos anos 90, e ainda continuam ganhando espaço nas caixas de e-mail.
Intrigado com as histórias deste tipo, o professor de línguas Carlos Renato Lopes resolveu estudá-las a fundo. Começou a reuni-las em 2001 e, durante 2005, recolheu 7 mil e 200 mensagens trocadas em uma lista de discussão ligada ao site www.snopes.com. O resultado da análise desse material está na tese de doutorado “Lendas urbanas na internet: entre a ordem do discurso e o acontecimento enunciativo”, defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Segundo o pesquisador, a rede deu um novo vigor a esse gênero que, tradicionalmente, era veiculado oralmente e por isso mesmo restrito a determinadas comunidades. “Há uma razão mais evidente para isso, ligada ao fato de a internet ser um espaço de extraordinário alcance, tanto no sentido da rapidez com que as informações podem ser transmitidas, quanto no da quantidade de pessoas que essas informações podem atingir. Mas existe também a possibilidade de as narrativas serem debatidas, rebatidas, modificadas, revisitadas e checadas quanto à sua possível ‘veracidade’, tudo por meio virtual”.
Lopes atesta que, mesmo podendo ser desmentidas com facilidade – tamanha a facilidade de comunicação do mundo moderno – as lendas urbanas não perderam sua força: “Sem dúvida, continuamos ainda hoje assistindo a uma franca circulação dessas mensagens, quer as pessoas acreditem mais ou menos nelas. Aliás, o que muda são as versões, as possíveis ‘atualizações’ das lendas, pois o impulso para passá-las adiante, esse provavelmente continuará ainda por muito tempo”.
Uma das motivações mais recorrentes para a propagação das lendas urbanas, segundo o professor, é o medo. Mas o que tanto se teme? Crimes violentos, doenças letais, grandes transformações ambientais? “Também, mas não apenas”, diz Lopes em sua tese. E completa: “o que nos aterroriza com maior freqüência são as ameaças do cotidiano, surgidas no universo mais trivial que nos cerca. São questões como os supostos riscos causados por novas tecnologias (caso dos celulares), o problema da contaminação ou adulteração de alimentos e a insegurança em lugares públicos”. São temores geralmente universais que ganham roupagem local, atraindo o sentimento de identificação do leitor.
Um fator que ilustra bem este processo são as de algumas lendas que costumam atravessar gerações, resistindo à passagem do tempo, ou seja, quanto mais se tenta desbancá-las, mais elas continuam a ser retransmitidas. Dois bons exemplos seriam :
• Roubo de órgãos. Em sua versão mais conhecida, um jovem participa de uma noitada e na manhã seguinte acorda dentro de uma banheira cercado de gelo. Percebe então que teve um órgão (normalmente um rim) extraído para ser traficado. No espelho do banheiro, encontra uma mensagem escrita com batom vermelho avisando-o do ocorrido. “Histórias envolvendo roubo ou retirada de partes do corpo de uma pessoa para determinado fim (experimentos médicos clandestinos, por exemplo, mas também por vingança, ou como prêmio para uma disputa) remontam até à mitologia grega. Trata-se de um motivo narrativo que certamente não é novo também na literatura ocidental. Está presente, entre outras obras, em O Mercador de Veneza, peça de Shakespeare cuja trama central gira em torno da cobrança do pagamento de uma dívida financeira na forma de uma ‘libra de carne’ do corpo do devedor”, revela o pesquisador da USP.
• Agulhas contaminadas com HIV em lugares públicos. Por vingança ou pura maldade, alguém resolve espalhar o vírus da AIDS plantando agulhas contaminadas em lugares insuspeitáveis como assentos de teatros e cinemas, receptáculos de cartões em telefones públicos e bombas de abastecimento de combustível. O elemento do bilhete que avisa da tragédia (algo na linha de “Bem-vindo ao mundo do HIV”) costuma aparecer aqui também. Lopes destaca: “O curioso é pensar que, por mais que tal situação tenha de fato acontecido em algum momento, em algum lugar, seu apelo como narrativa é tão forte que acaba surgindo uma história com vida própria, que atravessa os anos, mudando-se ocasionalmente os detalhes referenciais de data, local, pessoas envolvidas, mas permanecendo a ‘trama’ básica”.
Mesmo considerando que no Brasil o interesse mais consistente pelas lendas urbanas é recente e praticamente restrito à internet e, até bem pouco tempo, a alguns raros trabalhos acadêmicos na área de psicologia social (Nos EUA a Canadá existem coletâneas e enciclopédias sobre o tema a mais de 20 anos), alguns sites já começam a surgir em língua portuguesa inteiramente ou parcialmente dedicados ao tema. Entre eles, o www.quatrocantos.com e o www.mrmalas.com. “Nestes endereços encontramos um repertório de lendas urbanas, digamos, universais ou pelo menos as mais conhecidas e também algumas versões locais ‘adaptadas’ ao contexto brasileiro, como é o caso da famosa lenda da loura do banheiro ou o da faca escondida dentro do boneco do Fofão”, diz Lopes.
O pesquisador concluiu sua tese de doutorado no final de 2007, mas ainda não conseguiu arrefecer seu entusiasmo pelo objeto de estudo: “Não deixei de receber as mensagens diárias do site que estudei. Ainda ontem li seis, algumas reciclando temas já antigos, outras trazendo a última ‘novidade’ no universo das lendas urbanas… até aparecer outra história mais saborosa ou assustadora, é claro!”.