Os modernos, moderninhos e “modernosos” que me perdoem, mas sou da época da velha e boa máquina de escrever. Daquelas Remington e Olivetti que a gente teclava com fúria, mesmo faltando algumas peças. Acho que os dedos dos datilógrafos, de tão acostumados a lutar com materiais de ferro, acabavam por ganhar uma resistência toda especial. Mas não vim aqui para falar de passado ou peças de museu – ainda que, até a dois anos, eu guardasse no armário da minha casa uma máquina de datilografia completamente reformada, nova em folha, que acabei doando. Mas quem será o alienígena que a herdou???
Bem, o fato é que tenho de admitir que nenhuma máquina de escrever, mesmo aquelas que conseguiam apagar a tinta, conseguem competir com os benefícios do computador. Por outro lado, os resultados extraídos dessa moderna tecnologia dependem imensamente do grau de informação e conhecimento do usuário, de sua visão de mundo e de sua formação familiar e escolar desde a infância. Como tudo na vida…
Vejam o exemplo das redes sociais da Internet. No Brasil, elas reúnem 29 milhões de usuários por mês, ou seja, nada menos que oito em cada dez pessoas conectadas. Mas o tipo de utilização ainda está mais para paqueras e bate-papos informais do que para estudos, ganhos de experiência e construção de uma realidade melhor para todos. Recentemente uma pesquisa do Ministério da Saúde revelou que 7,3% dos adultos com acesso à internet já fizeram sexo com alguém que conheceram na web e mal tinham contato no mundo real. Qual o problema? A gente sabe o quanto ferve o sangue do brasileiro e como ele gosta de correr riscos desnecessários! Sabemos, também, que os brasileiros já dominam o Orkut e, agora, avançam rapidamente sobre o Twitter e o Facebook. A audiência do primeiro quintuplicou neste ano e a do segundo dobrou. Juntos, esses dois sites foram visitados por seis milhões de usuários em maio, um quarto da audiência do Orkut.
Tudo bem: ainda que priorizemos os sites de relacionamentos, qual o impacto deles no campo da convivência saudável e promissora? Essa comunicação on-line consegue suprir as necessidades afetivas mais profundas? A Internet tornou-se um ponto de encontro tão vasto quanto superficial, praticamente anulando a necessária intimidade e o necessário tempo para a criação de laços efetivos. E correr em demasia, quando se trata de elos, faz piscar a luzinha vermelha!
Os sites de relacionamento podem ser úteis, sim, sem sombra de dúvida, para manter amizades separadas pela distância ou pelos anos e para unir pessoas com interesses comuns. Exemplo disso foi o uso do Twitter por iranianos para denunciar, em mensagens curtas e tempo real, a violência contra os manifestantes que reclamavam de fraudes nas eleições presidenciais. Em excesso, porém, provocam efeito contrário, segundo psicólogos e sociólogos: as pessoas acabam por se isolar e tornam-se dependentes de um mundo de faz-de-conta, em que só se sentem à vontade para interagir com os outros se protegidas pelo véu da impessoalidade.
O sociólogo americano Robert Weiss escreveu, na década de 70, que existem dois tipos de solidão: a emocional e a social. Segundo Weiss, “a solidão emocional é o sentimento de vazio e inquietação causada pela falta de relacionamentos profundos, enquanto a solidão social é o sentimento de tédio e marginalidade resultante da falta de amizades ou de um sentimento de pertencer a uma comunidade”. Vários estudos têm reforçado a tese de que os sites de relacionamentos diminuem a solidão social, mas aumentam significativamente a solidão emocional.
É como se os participantes dessas páginas da Internet estivessem sempre rodeados de gente, mas não pudessem contar com alguém no caso de uma relação mais próxima. A associação entre a sensação de isolamento e o uso compulsivo de comunidades virtuais foi observada em pesquisas com jovens na Índia, na Turquia, na Itália e nos Estados Unidos. E na Austrália, ainda, um estudo da Universidade de Sydney com idosos mostrou que aqueles que usam a Internet principalmente como uma ferramenta de comunicação tinham um nível menor de solidão social. Já os entrevistados que preferiam usar os computadores para fazer amigos apresentaram um alto grau de solidão emocional.
Diferentemente do e-mail, sites como Orkut, Facebook e Twitter, por sua instantaneidade, criaram um novo tipo de ansiedade: a de ficar sempre plugado para evitar a impressão de que se está perdendo algo. Lev Grossman, colunista de tecnologia da revista americana Time, decidiu cancelar sua conta no Twitter porque percebeu que estava ficando mais interessado na vida alheia do que na própria. Além disso, a própria Biologia – através de estudo do conceituado antropólogo inglês Robin Dunbar, especialista em Psicologia Evolutiva –, determina que o número máximo de pessoas com quem cada um de nós consegue manter uma relação social estável é, em média, de 150. Então, quem mergulhar de cabeça nessa onda de relacionamentos apenas virtuais, vai acabar morrendo na praia.
Este post é uma colaboração da Sheila Dunaevits, Coordenadora de Comunicação do REDE CDI no Brasil.